Boas a todos. Andei para aqui a ler os vossos relatos e finalmente criei coragem para partilhar o que me aconteceu. Vou tentar ser direto, mas peço desculpa se me alongar — é que quando começo a lembrar disto, é difícil parar.
Foi em novembro de 2019. Eu e a minha mulher decidimos ir ao Cairo. Nada de resorts no Mar Vermelho com tudo incluído — ela é licenciada em História e sempre quis ver as pirâmides com os próprios olhos. Eu, para ser sincero, fui mais pela viagem do que outra coisa. Nunca fui pessoa de acreditar em coisas sobrenaturais. Sempre fui daqueles que diz "isso tem uma explicação lógica". Era.
Ao terceiro dia fomos a Gizé. Arranjámos um guia local, o Ahmed, um tipo porreiro que falava bem inglês. Estavam uns 30 graus — novembro e aquele calor, ó pá. Havia turistas, mas não era aquela loucura de época alta.
A Pirâmide de Quéops ao vivo é outra coisa. As fotografias não fazem justiça nenhuma. Chegas lá, olhas para aqueles blocos de pedra — cada um chega-te ao peito — e são milhões deles. A cabeça não processa.
O Ahmed perguntou se queríamos entrar. A minha mulher nem hesitou, e eu fui atrás. Pagámos a entrada e lá fomos nós. A passagem é estreita, baixa, abafada. Eu não sou claustrofóbico, mas confesso que não é a coisa mais agradável do mundo. Começámos a subir pela Grande Galeria — um corredor inclinado, comprido, com o tecto alto. E foi aí que aconteceu a primeira coisa que não consigo explicar.
Fiquei uns metros atrás da minha mulher e do Ahmed. Eles dobraram uma esquina e, durante um instante — estou a falar de dois ou três segundos — senti que estava completamente sozinho. Não no sentido de "eles foram à frente". No sentido de estar sozinho no mundo. Os sons desapareceram todos. Todos. Nem passos, nem vozes de turistas, nem o eco normal daquelas paredes. Um silêncio absoluto, denso, quase palpável. E o cheiro mudou — em vez daquele ar rançoso e húmido, cheirava a qualquer coisa adocicada, como incenso, mas diferente. Não sei explicar melhor.
Durou dois, três segundos no máximo. A minha mulher chamou-me e tudo voltou ao normal — os sons, os cheiros, a sensação de realidade. Na altura pensei "é o calor, é a falta de ar" e nem disse nada à minha mulher.
Chegámos à Câmara do Rei. É uma sala com um sarcófago de granito, vazia, com um eco enorme. O Ahmed ia explicando coisas, a minha mulher tirava fotos. E eu estava encostado à parede do fundo a sentir-me estranho. Não mal — estranho. Como se houvesse mais alguém naquela sala para além de nós e dos outros três ou quatro turistas. Não era uma presença ameaçadora, era mais... observadora. Sabem aquela sensação de quando entram em casa de alguém e o dono da casa está ali à porta a olhar para vocês em silêncio? Era isso.
Quis tirar uma foto ao sarcófago com o telemóvel. Tirei-o do bolso, apontei a câmara — e o telemóvel desligou-se. Simplesmente apagou. A bateria estava nos 70 e tal por cento. Carreguei no botão de ligar — nada. Carreguei mais tempo — nada. A minha mulher ao meu lado estava a fotografar normalmente com o dela, sem problema nenhum. Enfiei o meu no bolso e pensei "depois vejo isso".
Ligou-se sozinho uns quinze minutos depois, quando já estávamos a sair da pirâmide. O ecrã acendeu como se nada tivesse acontecido. Bateria — 70%. Mas na galeria de fotos havia uma imagem que eu não tirei. Preta, quase toda preta. Mas quando puxei o brilho ao máximo, via-se a parede, o canto da câmara, e qualquer coisa parecida com uma sombra junto ao sarcófago. Não era a minha sombra, não era de nenhum turista — era diferente. Alongada, com uma forma que não batia certo. A minha mulher disse que devia ser um artefacto da câmara. Se calhar era.
Pronto, até aqui ainda se consegue arranjar uma explicação racional para tudo. O que veio a seguir já não sei.
Nessa noite voltámos ao hotel. Tomei um banho, deitei-me, estava rebentado. Adormeci num instante. E tive um sonho que ainda hoje me lembro nos mínimos detalhes — e olhem que eu normalmente esqueço os sonhos antes de acabar o pequeno-almoço.
Estava dentro da pirâmide, mas era diferente. Não estava degradada — era nova. As paredes lisas, cobertas de desenhos e símbolos. Havia lamparinas a óleo acesas. E eu caminhava por um corredor e sabia para onde ia — como se tivesse feito aquele percurso centenas de vezes. Sentia a roupa no corpo — qualquer coisa de linho grosseiro. E sentia que não era eu. O corpo era outro, as mãos eram outras — pele escura, calos, e uns braceletes nos pulsos.
Cheguei a uma sala. Não era a Câmara do Rei — era outra, mais pequena, com o tecto mais baixo. Havia lá um recipiente de pedra e eu sabia que tinha de colocar qualquer coisa lá dentro. Não me lembro o quê. Mas sabia que era importante e que não era a primeira vez que o fazia.
Depois ouvi um som. Grave, vibratório, como se a própria pirâmide estivesse a ressoar. Não era desagradável, mas era potente — sentia-o no corpo todo. E nesse momento olhei para cima e vi que o tecto não estava lá. Em vez de pedra, havia céu. Mas não um céu normal — as estrelas estavam mais perto, mais brilhantes, e moviam-se. Rodavam lentamente.
Acordei às 3h47 da manhã. Lembro-me da hora porque olhei logo para o telemóvel. O coração a bater a mil, a t-shirt encharcada. E agora vem a parte que me assustou a sério: no pulso esquerdo tinha duas marcas vermelhas. Paralelas, como se tivesse usado qualquer coisa apertada — uma corda, um bracelete. Não eram arranhões — eram marcas de pressão. Estiveram visíveis umas duas horas e depois desapareceram. A minha mulher estava a dormir, não a acordei.
No dia seguinte fomos ao Museu Egípcio. Estava a ver os objetos e, numa das salas, parei. Havia peças de túmulos — vasos, estatuetas, adornos. E vi braceletes. De bronze, largos, com incisões. Eu reconheci-os. Não "pareciam-se com os do sonho" — eu reconheci-os como se reconhece uma coisa nossa. As mãos começaram-me a tremer. Senti o peso deles nos pulsos.
O Ahmed estava connosco. Perguntei-lhe que braceletes eram aqueles, quem os usava. Disse-me que eram usados pelos "hemu netjer" — servos do templo, uma espécie de sacerdotes menores que trabalhavam nos templos e túmulos. Não eram os grandes sacerdotes, eram os que faziam os rituais do dia-a-dia. Perguntei que rituais. Disse-me: oferendas, preparações, cuidar dos objetos sagrados. Basicamente, aquilo que eu estava a fazer no sonho.
Não tinha contado nada do sonho ao Ahmed.
Já passaram mais de seis anos. O sonho não se repetiu, as marcas nos pulsos nunca mais apareceram. O telemóvel funciona normalmente. Aquela foto preta ainda está na minha cloud — de vez em quando abro-a, olho para aquela sombra e fico ali sem saber o que pensar.
À minha mulher só contei tudo meio ano depois. Reagiu como era de esperar — "olha, se calhar foi memória genética, se calhar foram as impressões do dia a misturarem-se" . Ela é assim, racional, prática, os pés bem assentes no chão. Eu também era.
Não sei o que foi aquilo. Não afirmo nada — nem vidas passadas, nem espíritos, nem energias das pirâmides. Contei o que aconteceu, ponto. Se alguém passou por algo parecido, escrevam, que gostava de comparar.