Previsões
Traduzido do russo
Publicado: 2026-03-26

Em 2019, eu trabalhava no turno da noite como recepcionista em um pequeno hotel nos arredores de Kazan. O trabalho era tranquilo — check-ins depois da meia-noite eram raros, então na maior parte do tempo eu ficava na recepção lendo ou assistindo algo no notebook. Foi numa dessas noites que tudo começou. Tive um sonho. Não daqueles borrados que você esquece cinco minutos depois de acordar. Era extremamente nítido, como se eu estivesse assistindo a um documentário em alta definição. Eu via uma rua que não reconhecia: uma avenida larga, com prédios residenciais altos dos dois lados, daqueles típicos de bairros periféricos em qualquer cidade russa. No térreo de um prédio de esquina havia um mercado com a placa “Magnit”. Ao lado, um ponto de ônibus com um anúncio de academia. Lembro até da cor das letras: laranja sobre fundo preto. Depois vi pessoas tirando um corpo do prédio em uma maca. Havia polícia, ambulância. Uma mulher com o casaco acolchoado aberto estava na entrada gritando. Não chorava — gritava, sem palavras, só um som. Vi o número do prédio: 14. Também havia uma placa com o nome da rua, mas não consegui ler — acordei. Anotei tudo no celular. Tenho o hábito de registrar sonhos vívidos, como um diário. Coloquei a data: 12 de março de 2019. Três dias depois, em 15 de março, eu estava vendo notícias e vi uma manchete: em um prédio residencial em Naberezhnye Chelny, um homem se envolveu em um conflito doméstico que terminou com a morte de um vizinho. O endereço era na avenida Mira. Abri as fotos do local e fiquei tonta. Os mesmos prédios. O mesmo “Magnit” na esquina. A matéria não mostrava o número, mas encontrei em outra fonte: avenida Mira, número 14. Eu nunca estive em Naberezhnye Chelny. Não conheço ninguém que more lá. Não tinha visto notícias nem filmes sobre essa cidade antes daquele sonho. Contei para uma colega no turno seguinte. Mostrei a anotação com a data. Ela me olhou estranho e disse: “Coincidência”. Mostrei as fotos e minha anotação. Ela deu de ombros. Tive a impressão de que ficou incomodada, mas não quis continuar o assunto. Eu também teria deixado isso como coincidência, se não fosse o segundo caso. Junho de 2019. Sonhei com um aeroporto. Não como nenhum que eu já tivesse visto — enorme, com tetos altos de vidro. Todas as placas estavam em dois idiomas, um deles eu não entendia, mas parecia árabe. Eu estava diante de uma janela panorâmica olhando a pista. Vi um avião branco, com uma faixa azul ao longo da fuselagem e um emblema que não consegui identificar. O avião começou a acelerar para decolar, e eu sabia — ali mesmo no sonho, com certeza absoluta — que ele não iria levantar voo. Eu sentia isso como um fato, como saber que a água molha. O avião ganhava velocidade, mas algo estava errado. Parecia mais pesado do que deveria. O nariz não subia. E então: um clarão, fumaça preta… e acordei. Anotei: “Aeroporto, escrita tipo árabe, avião branco com faixa azul, não decolou, fogo”. 17 de junho de 2019. Nada parecido aconteceu em junho ou julho. Achei que talvez eu tivesse assistido a muitos vídeos de acidentes aéreos no YouTube antes de dormir. Depois, em 7 de agosto de 2019, um Airbus A321 da Ural Airlines fez um pouso de emergência em um campo de milho após decolar de Zhukovsky. Não era um aeroporto com placas em árabe, e o avião não pegou fogo. Todos sobreviveram. Não era o caso. Quase esqueci o sonho. Mas dois meses depois encontrei uma notícia que tinha perdido. Em maio de 2019 — antes do meu sonho — um Sukhoi Superjet pegou fogo ao pousar em Sheremetyevo. 41 pessoas morreram. Ainda assim não coincidia totalmente: o incêndio foi no pouso, não na decolagem. Deixei isso de lado. Mas em janeiro de 2020 aconteceu o desastre do Boeing 737 da Ukraine International Airlines em Teerã. O avião foi abatido logo após a decolagem. Aeroporto iraniano — placas em persa, visualmente parecidas com o árabe. Avião branco com faixa azul — exatamente a pintura da companhia. Explosão logo após ganhar velocidade. Quando vi as fotos do avião, minhas pernas fraquejaram. Fuselagem branca, faixa azul. Exatamente o que eu tinha visto no sonho sete meses antes. Eu entendo que há uma grande distância entre “um avião branco com faixa azul” e um voo específico. Metade das companhias aéreas usa essas cores. Mas a combinação dos detalhes — a escrita parecida com árabe, o clarão na decolagem, a sensação de peso anormal — era precisa demais. Depois disso, comecei a registrar todos os meus sonhos em detalhes, todas as noites. Fiz uma planilha com colunas: data, conteúdo, nível de intensidade (de 1 a 10) e uma coluna separada de “coincidências”, que eu preenchia depois, caso algo do sonho lembrasse a realidade. Em dois anos — de 2020 a 2022 — registrei mais de 600 sonhos. Desses, 47 considerei “vívidos”. Entre esses 47, encontrei possíveis coincidências com a realidade em 11 casos. Mas, sendo sincera, a maioria era vaga: “sonhei com um acidente” — acidentes acontecem todos os dias. “sonhei com um incêndio” — também não é algo raro. Mesmo assim, houve três casos específicos o suficiente para eu parar de atribuir tudo à estatística. Em novembro de 2021, sonhei com um shopping center grande, com um átrio central e um elevador de vidro. Pessoas ficaram presas no elevador, e depois ele começou a cair. Eu via os rostos: uma mulher com um carrinho de bebê, um adolescente com fones de ouvido, um senhor com sacolas. Duas semanas depois, houve um incidente com um elevador no shopping Evropeysky, em Moscou: ele ficou preso entre andares com pessoas dentro. Ninguém se feriu, e ele não caiu. Mas o átrio central com o elevador de vidro coincidiam. Contei ao meu marido. Ele trabalha com TI, é muito racional. Pediu para ver a planilha. Analisou por dois dias e disse: “Viés de confirmação. Você lembra dos acertos e esquece os erros. São 600 registros e 11 coincidências vagas — menos de dois por cento. Pura coincidência”. Eu teria concordado com ele. Mas ele não sentiu o que eu senti dentro desses sonhos. Não é só “eu sonhei”. É uma sensação de presença total, como se você estivesse em um lugar real, em um momento real — só que ainda não aconteceu. Eu não posso provar isso. Não consigo reproduzir quando quero. Mas eu vivi isso. O último caso foi em setembro de 2022. Sonhei com uma ponte longa, estaiada, sobre um rio largo. Eu estava em cima dela e sentia a vibração. A estrutura tremia. As pessoas corriam. Um dos cabos se rompia, e eu ouvia um som — um gemido metálico grave que fazia tudo dentro de mim se contrair. Anotei a data: 18 de setembro de 2022. No dia 1º de outubro de 2022, uma ponte suspensa desabou sobre o rio Machchhu, em Morbi, na Índia. 135 pessoas morreram. Era uma ponte suspensa, não estaiada. Mas — ponte sobre um rio largo, cabos rompendo, vibração da estrutura. Treze dias entre o meu sonho e a tragédia. Não conto mais isso ao meu marido. Ele é uma boa pessoa e me ama, mas sempre que começo a falar sobre isso vejo nos olhos dele uma mistura de preocupação e desconforto, como se não soubesse se deveria se preocupar com a minha saúde mental ou apenas mudar de assunto. Eu não sou vidente. Não vendo cursos de intuição. Sou uma pessoa comum, hoje trabalho em uma empresa de logística, com um salário normal. Não tenho explicação para o que acontece. Não consigo controlar esses sonhos. Eles vêm sem aviso — às vezes uma vez por mês, às vezes uma vez a cada seis meses. Não sei por que vejo justamente catástrofes. Talvez porque sejam grandes o suficiente para virar notícia e eu consiga verificar. Talvez eu também “preveja” coisas pequenas — um espelho quebrado, uma carteira perdida — mas nunca fico sabendo. Tenho 32 anos. Continuo mantendo minha planilha. Se algum cientista quiser estudar isso um dia, estou disposta a mostrar tudo. Está tudo lá: datas, anotações, descrições. É a única prova que eu tenho.