Previsões
Publicado: 2026-04-11

Oi, gente! Tenho 23 anos, sou de Belo Horizonte, trabalho como recepcionista numa clínica odontológica. Minha avó sempre me arrastava quando eu era criança pra todo tipo de cartomante e vidente. Lá em casa é tipo uma tradição de família. Mas eu levava isso numa boa, tipo horóscopo de revista. Aí em fevereiro eu fui com minha prima Letícia passar o fim de semana em Ouro Preto. É uma cidadezinha histórica a uma hora e meia de onde a gente mora. A gente só queria andar pelas ladeiras, comer um pão de queijo, tirar foto nas igrejas antigas. Nada de especial. Sábado de noite a gente tava voltando da Praça Tiradentes em direção ao hotel, e eu resolvi cortar caminho por um becozinho , tinha umas lojinhas de artesanato e uns cafés ali. E de repente uma mulher me parou, uns sessenta anos, com o cabelo preso num lenço e as mãos cheias de anéis de prata. Ela não parecia aquelas "cartomantes" que te pegam pelo braço nas praças e ficam pedindo dinheiro. Ela tava sentada na porta de uma lojinha de temperos e ervas, e quando eu passei na frente, ela só falou baixinho: "Menina, espera." Eu parei mais por educação. Ela me olhou uns cinco segundos e falou ( eu lembro quase palavra por palavra): "Vão te ligar na terça. Não atenda na hora. Pense por três dias. A pessoa que vai ligar vai te oferecer uma coisa que vai parecer um presente, mas não é presente. E mais uma coisa . Vai aparecer uma cicatriz no seu pulso esquerdo logo logo. Pequena. Não tenha medo dela, ela vai te salvar de uma coisa maior." Sinceramente, eu fiquei passada. A Letícia do meu lado deu uma risadinha. E a mulher simplesmente voltou pras ervas dela, como se eu nem existisse mais. A gente foi embora, mas sei lá por que eu não conseguia tirar aquilo da cabeça. E agora vem a parte mais interessante. Terça de manhã, umas dez horas, me liga um número desconhecido. Quase não atendi, mas no último segundo lembrei daquela mulher e atendi. Era o ex-chefe do meu pai. Meu pai morreu faz quatro anos, e esse cara não ligava pra gente desde o enterro. Ele falou que tinha uma oportunidade ótima pra mim. Que um conhecido dele tava abrindo uma clínica nova em São Paulo, que precisavam de uma recepcionista, que o salário era quase o dobro do que eu ganho hoje, e que ele lembrou de mim, mas eu precisava dar a resposta rapidinho". Na hora me veio na cabeça: "não atenda na hora, pense por três dias." Falei pra ele que eu precisava pensar até sexta. Ele ficou meio estranho, tenso, e começou a pressionar: que a vaga ia fechar, que eu tinha que decidir agora, que já tinha outros candidatos na fila. E aí meio que me desanimei. Não foi por causa da cartomante, foi por causa do jeito que ele tava falando. Muita pressão pra uma simples proposta de trabalho. Mesmo assim eu falei sexta. Ele aceitou meio a contragosto. Quarta eu pedi pra uma amiga minha que trabalha em RH dar uma olhada em que raios de "clínica nova" era essa em São Paulo. Sabe o que ela falou? Ela falou que não sabia nada de clínica nova nenhuma, mas que o cara que me ligou tá dando o que falar agora, que ele tá sob investigação e envolvido numa história de licença médica falsa e empresa de fachada. É tipo isso. Se eu tivesse aceitado na hora, eu tinha mudado pra outra cidade, assinado contrato com uma empresa de fachada, e no melhor dos casos só tinha ficado sem emprego. No pior, nem sei. Liguei de volta e recusei educadamente. Depois dessa ligação já ficou tudo claro. Agora sobre a cicatriz. Depois daquela ligação eu já tava levando a previsão a sério e ficava meio com medo do que ia acontecer, como é que ia aparecer a cicatriz. E aí em março eu quebrei um copo na cozinha. Um copo normal, eu quebro um copo mais ou menos uma vez por mês. Um caquinho voou e cortou meu pulso esquerdo. Não foi fundo, mas saiu sangue, e ficou uma cicatrizinha rosada, bem em cima da veia. Fiquei sentada no chão da cozinha uns dez minutos só olhando pro meu pulso. Pensando como é que isso podia me salvar de uma coisa maior. A Letícia até hoje não acredita nessa previsão. Ela fala que todo mundo liga pra todo mundo o tempo todo, e que todo mundo se corta de vez em quando. Fala que o próprio cérebro encaixa os acontecimentos na previsão. Mas mesmo assim, agora eu fico olhando muito pra minha cicatriz e lembrando das palavras dela: "não tenha medo dela, ela vai te salvar de uma coisa maior." Beijos, Ana