Mistério
Traduzido do russo
Publicado: 2026-04-22

Esta história aconteceu com a minha tia. A minha tia nunca escondeu muito o ocorrido; toda a nossa numerosa família sabia do caso e, com o tempo, o que aconteceu acabou virando uma espécie de lenda familiar. Naquela época ela ainda era uma mulher jovem, de trinta anos, mãe de duas crianças pequenas, e passou por uma tragédia terrível: o marido, com quem era casada havia dez anos, morreu de leucemia aos trinta e um anos. Depois do enterro, a família se preparava para realizar o almoço fúnebre em memória do falecido. No maior cômodo da casa foi montada uma grande mesa para os convidados. Depois de preparar tudo o que era necessário, a minha tia e a irmã foram dormir em outro quarto. A cerimônia em si estava marcada para o dia seguinte. No meio da noite, a minha tia acordou de repente com o som da água correndo da torneira. Segundo ela, dava para ouvir com toda clareza alguém abrir a água no banheiro, lavar o rosto, sair e seguir em direção à sala. Ela ouvia nitidamente os passos de alguém andando. A porta do quarto em que dormia estava entreaberta, mas no apartamento estava escuro e era impossível distinguir qualquer coisa. Além disso, de onde estava deitada não dava para ver nem a entrada do banheiro nem a da sala. Instintivamente, olhou de lado para a irmã: ela dormia ao seu lado. Não havia mais ninguém no apartamento. Ela não conseguia se mexer do pavor que a dominava e, quase sem respirar, ficou deitada ouvindo o que acontecia na sala. E na sala alguém avançava ao longo da mesa fúnebre — dava para ouvir o som das cadeiras encostadas à parede sendo movidas. A minha tia acompanhava mentalmente os movimentos do misterioso visitante e, de repente, ficou gelada diante de uma suspeita aterrorizante. Lembrou-se de que lá, na sala, junto à janela, tinha ficado a toalha com a qual haviam enxugado o corpo do falecido. Segundo a crença popular, a toalha usada para enxugar um morto deve ser colocada dentro do caixão ou queimada imediatamente depois do enterro; caso contrário, o espírito do falecido pode retornar. Mas tanto durante o funeral quanto depois dele todos se esqueceram daquela toalha. Os sons na sala cessaram, mas a minha tia não pregou o olho até o amanhecer, pronta a qualquer instante para ouvir ou até mesmo ver qualquer coisa. De manhã, descobriu-se que as cadeiras da sala estavam, de fato, um pouco deslocadas. A irmã também confirmou: lembrava-se perfeitamente de como as havia arrumado na véspera. Com a toalha a coisa era um pouco mais complicada — nem a minha tia nem a irmã se lembravam ao certo como ou onde a haviam deixado na noite anterior, de modo que não podiam afirmar com segurança que alguém a tivesse tocado. Tempos depois, a minha tia, criada numa família operária não religiosa, tentava convencer a si mesma de que toda aquela história havia sido uma alucinação ou um sonho. Mas, então, como explicar os sons ouvidos naquela noite e as cadeiras deslocadas? Para isso a minha tia não tem resposta.