Eu nunca acreditei em previsões. Nem em vidente, nem em “sinais”, nem nessa ideia de que dá pra saber o futuro. Sempre achei que as pessoas só encaixam os fatos depois. Até o que aconteceu comigo no outono passado. Moro num bairro comum. Trabalho em escritório, nada de especial. À noite gosto de sair pra caminhar, pra esfriar a cabeça. Perto de casa tem um parque pequeno, geralmente vazio. Tem bancos, postes de luz e uma máquina de bebidas bem antiga. Um dia notei algo estranho. Alguém começou a deixar bilhetes na máquina. Papéis pequenos, colados com fita. No começo não dei muita importância, achei que era brincadeira. Mas no dia seguinte tinha um bilhete novo. E o anterior tinha sumido. Fiquei curioso e fui ler. Estava escrito: “Amanhã às 18:40 um homem vai derrubar uma sacola na entrada da loja”. Sem assinatura. Sem explicação. Até achei engraçado. Mas no dia seguinte, voltando do trabalho, lembrei disso. Eram umas 18:35 e eu estava passando pela loja. Parei. Só por curiosidade. Às 18:40 em ponto, quase no segundo, um homem saiu da loja com uma sacola. Deu alguns passos… e a sacola rasgou. Tudo caiu no chão. Fiquei parado olhando, sem saber o que pensar. Podia ser coincidência. Estranha, mas possível. Na noite seguinte voltei ao parque. Tinha outro bilhete. “Às 22:12 o prédio em frente vai ficar sem luz em todos os andares por 5 segundos”. Dessa vez fiquei em casa, olhando pela janela. Dá pra ver esse prédio daqui. Às 22:12, as luzes apagaram. Todas. E alguns segundos depois voltaram. Aquilo já começou a me incomodar. Passei a ir lá todos os dias. Os bilhetes eram sempre diferentes. Coisas pequenas: alguém tropeçando, alarme de carro disparando, chuva inesperada. E tudo acontecia. Sempre. Mas depois ficou mais estranho. Um dizia: “Não abra a porta amanhã às 7:26”. Pensei em ignorar, mas mesmo assim acordei. Às 7:26 em ponto, alguém tocou a campainha. Eu não abri. Fiquei parado, ouvindo. Depois de alguns segundos, parou. Olhei pelo olho mágico — não tinha ninguém. Cheguei a pensar que era alguém me zoando. Mas como acertar o horário assim? Dias depois apareceu um bilhete que me assustou de verdade. “Você vai parar de vir aqui depois de sábado”. Li isso na sexta. No sábado fui mesmo assim. Tinha outro bilhete. E esse… “Às 21:03 você vai derrubar seu celular. Não pegue imediatamente”. Isso me irritou. Resolvi ignorar. Mas naquela noite, em casa, perto das 21:03, levantei do sofá… e o celular caiu da minha mão. Fui pegar na hora… mas parei. Nem sei por quê. Esperei alguns segundos. E então ouvi um estalo. O celular tinha caído perto da mesa. Se eu tivesse dado um passo pra frente na hora, pisaria numa poça de água que eu não tinha visto. Eu teria escorregado. Talvez não fosse nada. Ou talvez fosse pior. Depois disso, não deu mais pra tratar como brincadeira. No domingo voltei ao parque. A máquina estava lá. Mas não havia nenhum bilhete. Nenhum. Procurei tudo — lados, embaixo. Nada. Desde então nunca mais apareceu nada. Mas às vezes fico com uma sensação estranha. Como se eu tivesse perdido alguma coisa. E tem um pensamento que me incomoda: aquele último bilhete foi o único que não se cumpriu completamente. Porque eu ainda vou lá. Às vezes. Só que agora, toda vez que vejo a máquina… eu fico esperando aparecer outro bilhete.