Bom, tenho 30, clínica médica, trabalho de noite num hospital perto de Portland. Não consigo dormir e já faz mais de três anos que carrego isso comigo então vamos lá. Novembro de 2022. Plantão tranquilo, eu estava comendo biscoito de pasta de amendoim da máquina no posto de enfermagem porque mais uma vez esqueci de trazer comida. Alguém deixou house hunters ligado na sala de descanso e dava pra ouvir pelo corredor todo, normalmente isso me irrita demais mas naquela noite era até reconfortante de alguma forma. Não sei por que lembro disso. Chega uma paciente perto da meia-noite, mulher, uns 45 anos, SAMU trouxe de um estacionamento perto do Fred Meyer na 82. Sem documentos, sem celular, sem pertences. Sinais vitais estáveis, exames sem alterações. Não estava com nível de consciência alterado, sem sinais de intoxicação, sem quadro psiquiátrico agudo. Só muito calma e muito quieta, o que honestamente era mais perturbador do que se estivesse agitada. Pessoas que são encontradas sozinhas num estacionamento sem nada normalmente não ficam tão compostas assim. Entrei pra fazer a admissão por volta das 12:40. Ela estava sentada reta olhando o soro gotejar. Me apresento e ela já fala "vocês já trocaram?" Eu disse que não, que estava ali desde as 7. Ela inclinou a cabeça e disse que eu estava com sapatos diferentes antes. Pacientes confabulam, acontece, segui em frente. Comecei as perguntas da admissão. Nome não batia com nada no sistema. Endereço vago, como se estivesse inventando na hora. Nada disso é tão incomum pra ser sincera, a gente recebe paciente sem registro mais do que as pessoas imaginam. Aí ela me perguntou que horas eram. 12:43. Ela deu um sorrisinho e falou "então ainda não resetou". Perguntei o que ela queria dizer. Deu de ombros, olhou na direção da porta e falou "vai resetar. Você vai voltar daqui a um minuto e me perguntar tudo isso de novo. Você sempre faz isso." Terminei a admissão e saí. Fiquei uns cinco minutos fazendo anotações e aí percebi que esqueci de perguntar sobre alergias, o que é constrangedor mas era uma noite longa. Voltei. E na hora veio aquela sensação de déjà vu, forte. Ela estava na posição exata. Mesma postura, tudo igual. Olhou pra mim sem nenhuma surpresa e só falou "viu?" Olhei pro relógio na parede. 12:43. Eu sei como isso soa. Fiquei parada uns segundos e depois perguntei o que eu ia falar agora. Ela disse "você vai perguntar sobre alergias, e eu vou falar penicilina, mas não é verdade na real. Eu só falo isso porque você precisa anotar alguma coisa." Era exatamente por isso que eu tinha voltado. Perguntei. Ela falou penicilina. Anotei e saí. O relógio do corredor marcava 12:48 então aparentemente o tempo estava passando normal lá fora. Fui pra sala de descanso e sentei com mais um pacote de biscoito assistindo house hunters uns dez minutos porque sinceramente não sabia o que fazer com o que tinha acabado de acontecer. Pensei em falar pra enfermeira chefe mas o que eu ia dizer, a paciente do quarto 4 é vidente e o relógio quebrou? Voltei depois, ela estava dormindo. Teve alta a pedido antes do meu próximo plantão. No prontuário constava sem alergias conhecidas. Sem parecer da psiquiatria, sem alertas, nada. Como se tivesse sido uma internação completamente comum. Sei lá. Eu estava cansada, estava no meio de uma sequência de noturnas, talvez o relógio só estivesse com defeito e ela fosse boa em ler as pessoas. Provavelmente é isso. Mas comecei a tirar foto do relógio do corredor durante os plantões, virou hábito. Minha galeria é basicamente centenas de fotos de um relógio. Enfim. Desculpa pelo textão. Só precisava escrever isso em algum lugar que não fosse as notas do celular.